domingo, 6 de março de 2016

Sidney, Louro, Lourinho – o Meu Santo



Eram esses os nomes que nós o chamávamos. Confesso, não sei o seu verdadeiro e completo nome, apesar da intimidade que tínhamos.
Creio que já estávamos na segunda metade da década de 1970, quando no bairro do Codozinho correu a notícia: - Lourinho voltou. – Qual Lourinho? O tio do Bodinho. Irmão da Tereza do Osvaldo bananeiro. E por aí ia... Voltara do Rio de Janeiro. Era uma avalanche de informações nas quais os apelidos se sobressaiam e, só quem era do meio compreendia.
Bem, logo fomos ter com o Lourinho lá no Beco do seu Viégas, onde nos reuníamos nos finais de tarde, início de noite. Ali “trocamos umas figurinhas” e ficamos próximos, depois veio o jogo de bola na Areinha e nos aproximamos mais. Descobri que o Louro era torcedor do Fluminense, como eu e o Sérgio Gordo. No Codozinho, a maioria torcia pelo Flamengo.
Mais adiante, ficamos parceiros no futebol. Louro conquistou posição na zaga do Clube do Remo, o nosso time do bairro, no qual eu era lateral esquerdo. Então, ali eu o chamava de Silveira, zagueiro, da época, do Fluminense. Ele me chamava de Marco Antônio, lateral esquerdo, do Flu.
Depois nos descobrimos como afeiçoados do jogo de dama. No bairro do Codozinho, só ele e o Dudu,que eu também o chamo de Meu Santo, eram páreos para mim nessa modalidade.
Agora, já éramos amigos, íntimos, jogadores de dama para os quais a atenção dos amigos se voltava quando estávamos na disputa.
O jogo de dama, tal como o xadrez, exige o máximo de concentração dos jogadores, mas naquele, quando jogamos, fazemos algumas artimanhas para desconcentrar o adversário. O Louro, quando fazia uma jogada em que dava uma pedra e comia três ou quatro pedras minhas ou do Dudu, costumava dizer assim: -“come aqui Meu Santo” e, então, procedia aquela jogada arrasadora que o levava a ganhar, ou, no mínimo, empatar o jogo. Mas, nem eu nem o Dudu, deixávamos barato, sempre devolvíamos com a mesma moeda e, por isso, passamos a nos chamar de “Meu Santo”.
Um dia, quando jogávamos, o Zé Maria do Serrote, meninote ainda, hoje, grande criminalista, chegou perto e viu que eu ganhava com vantagem do Louro e começou a me chamar de Rei Lulu, uma paródia, ao lutador maranhense de luta livre, o Rei Zulu.  Não perdi a deixa e, para irritar mais o Lourinho, fiz de pronto uma cantiga, assim: - “Ele é jogador de dama/ganhando de Norte a Sul/E o nome dele/É Rei Lulu/E o nome dele é Rei Lulu”. Aí eu perguntava o nome dele e plateia respondia – “É Rei Lulu”.
Isso, às vezes funcionava, outras vezes, ele, o Louro, virava o jogo e começava a perguntar: - “Como é o nome dele?” e, eu perdendo, ou sendo vítima de uma jogada sensacional, ficava calado, é claro, e ele voltava à carga: - “Perdeu a fala, Meu Santo?”. E, assim corria o jogo inteiro. Sempre um tentando desconcentrar, irritar, distrair, o outro.
Louro era uma pessoa que se sobressaia aos demais. Frequentava a turma da “esquadrilha da fumaça” do Codozinho de Baixo, mas sempre foi querido no Codozinho de Cima. Tanto era assim, que era titular no nosso time de”pelada” (jogo de futebol sem chuteiras). Solteiro, nunca o vi com uma namorada. Dava as suas saídas, mas nunca se comprometeu com ninguém. Desde que o conheci, trabalhava como guarda de segurança e nessa profissão se aposentou.
Era cônscio da vida que queria pra si, e assim viveu a vida toda, até que o Grande Deus o chamou, no mês passado, para fazer parte do plano celestial. Foi vítima de infarto fulminante.
Há muito tempo não jogo dama, entretanto, fica em nosso coração uma enorme lacuna deixada pela ausência, pela passagem desse parceiro para outro plano. Lourinho, agora a tua vida faz parte da rotina celestial e Deus te iluminará para todo o sempre. Eu e o Dudu perdemos um grande e virtuoso parceiro, que de agora em diante não será mais apenas Meu Santo – como eu e Dudu chamávamos, mas, será santo do Senhor.
Que a tua passagem seja, enfim, como sempre foi a tua vida aqui, entre nós – calma, serena, prazerosa, tranquila.

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